sábado, 10 de dezembro de 2016

O Filho de Machado de Assis - 11

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Crítica: Luiz Vilela em um diálogo bem-humorado e cheio de nuances

Novela ‘O filho de Machado de Assis’ traz a história do professor Simão e seu aluno Mac



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O escritor Luiz Vilela por Cássio Loredano - Loredano

RIO - O mineiro Luiz Vilela é uma das raras unanimidades na literatura brasileira: agrada tanto aos eruditos como ao grande público, aquele que muitas vezes busca na literatura um entretenimento, algo que o faça esquecer por algum tempo a monotonia do cotidiano.

Ele consegue tal façanha graças a uma preciosa junção de escrever bem, produzindo textos fluidos e diálogos primorosos, com um mergulho na condição humana em suas múltiplas facetas. Desde o seu livro de estreia, “Tremor de Terra”, publicado aos 24 anos, Vilela não parou mais de escrever e foi aos poucos apurando sua maneira peculiar de observar e transmitir suas impressões sobre o mundo.

A novela “O filho de Machado de Assis” é um diálogo bem-humorado e cheio de nuances entre o velho professor Simão e seu ex-aluno Mac. O professor afirma, com certeza categórica, mas sem revelar suas fontes, que Machado, que não deixou descendentes conhecidos, teve um filho. E chega a fantasiar que encontrou por acaso um motorista de táxi parecidíssimo com o escritor e que seria um de seus bisnetos ou tataranetos. Na realidade, o filho do escritor funciona nesta novela principalmente como um pretexto para discutir temas como a força da palavra, as muitas faces daquilo que é estabelecido como verdadeiro, a idolatria aos autores consagrados e também as fantasias que se escondem dentro da cabeça de cada um de nós, como um trem de ferro que acelera continuamente e não nos deixa em paz. O mofo dos velhos livros e manuscritos da Biblioteca Nacional, que tanto incomoda o aluno alérgico, é visto pelo professor como o cheiro da alma dos autores mortos.

O professor se esmera em contestar e ataca a chamada verdade histórica, que nos faz aceitar como verdadeira ao longo do tempo uma versão que, de repente, é contestada, desestruturando boa parte das bases do nosso conhecimento. O velho Simão vai fundo neste caminho e isto permite ao autor brincar com as palavras tendo como base, entre outros, personagens históricos como Tiradentes, que talvez nem tenha morrido na forca. Aqui nada é o que parece e tudo é um pretexto para duvidar e debochar de tudo e de todos. A moça que fala errado e diz “bissolutamente” em vez de “absolutamente” é um exemplo sintomático de como as palavras podem ser traiçoeiras e nos pegar pelo pé.

O professor Simão e seu aluno Mac são personagens consistentes, verossímeis em suas obsessões, entre as quais algumas das mais expressivas são as tentativas de brincar de desmontar significados e também a crítica corrosiva aos termos politicamente corretos.

Os mais rigorosos poderão dizer que “O filho de Machado de Assis” não acrescenta muito à obra consolidada de Luiz Vilela. E quem espera achar nesta novela profundas reflexões sobre a vida e os relacionamentos humanos talvez se decepcione. Mas é possível encontrar e apreciar nela uma linguagem bem cuidada e precisa e momentos inspirados de humor e sarcasmo, como a afirmação de que a cultura não confere caráter a ninguém, assim como a batina e o hábito não significam necessariamente santidade. Mais adiante o alvo passa a ser o universo do saber estabelecido. “O mundo acadêmico é isto”, afirma o professor, “sob as luvas de pelica, as garras da fera; por trás dos sorrisos, as presas, prontas para morder”.

*Elias Fajardo é escritor e jornalista, autor do romance “Belo como um abismo”, finalista do prêmio Jabuti 2015

“O filho de Machado de assis”
Autor: Luiz Vilela
Editora: Record
Páginas: 128
Preço: R$ 39,90
Cotação: Bom

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