quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Whisner Fraga resenha o conto “Tarde da noite”

           O escritor, engenheiro e professor Whisner Fraga resenha seu conto predileto de Luiz Vilela, o “Tarde da noite”, do livro homônimo de 1970. Esse conto, como diversos outros de Vilela, tem, como principal estratégia de construção narrativa, o diálogo, e nele mais uma vez fica evidenciado que o escritor é, conforme afirma Whisner Fraga, “o grande mestre neste quesito, na literatura brasileira e até em termos mundiais”. A resenha foi escrita a partir de uma proposta de Sérgio Tavares e foi publicada originalmente na revista digital Homoliteratura (veja aqui). Reproduzimos abaixo a publicação.




     Whisner Fraga resenha seu conto predileto:                        “Tarde da noite”, de Luiz Vilela



     Posted by: Sérgio Tavares , dezembro 4, 2014


Foto-Whisner-PB



O conto se inicia com um casal em uma cama e com um telefone que toca em um criado no quarto escuro. O homem atende e aos poucos é levado para um mundo estranho e ao mesmo tempo instigante. Luiz Vilela sempre trabalha com paradoxos e diálogos. Ficamos sabendo que, do outro lado da linha, uma moça afirma que vai se matar e que ela deseja que alguém a convença a não fazer isso. Evidentemente, ele pensa que é tudo brincadeira, mas a dúvida o leva a conversar seriamente. Há tempos não sentia o coração pulsar tão rapidamente, aquele frio na barriga, aquela emoção da juventude e, de repente, é ele que não deseja que aquela conversa não acabe mais.
Então, o homem repensa sua própria vida de decisões pretensamente equivocadas enquanto tenta convencer a moça de que tem um futuro à frente e que não é sensato colocar fim à vida dessa maneira. O problema é que vai ficando claro que acredita cada vez menos nisso. Assim, a conversa segue pela madrugada, enquanto a esposa, cansada e rabugenta, não se interessa por dramas alheios e insiste para o marido desligar, que não se acorda alguém assim de madrugada. Vamos percebendo que o homem se envolve com a moça e pensa até, quem sabe, que está tendo um caso.
Não há grandes argumentos, as falas são simples, corriqueiras e o papo prossegue até que, em determinado momento, a garota desliga e não se pode saber mais nada.
Vilela usa, desde seu primeiro livro, o recurso do diálogo. Para mim, o diálogo é uma forma complicada de representar a realidade e a menos verossímil, mas tenho no escritor mineiro um expert nessa arte. Opta pela norma culta para reproduzir uma oralidade que em nada se parece com a língua escrita. Funciona, mas é bom que o leitor tenha em mente que, por mais que se esforce para se aproximar da fala, é apenas uma tentativa frustrada. É uma fantasia dentro de um mundo de ficção. As conversas são lineares, um interlocutor não interrompe o outro, como se fossem um algoritmo, que obedece a uma ordem preestabelecida. Os diálogos na vida real nunca são assim. Mesmo com todas essas ressalvas, não há dúvidas de que o grande mestre neste quesito, na literatura brasileira e até em termos mundiais, é Luiz Vilela.

                     Trecho do conto Tarde da noite, de Luiz Vilela

“Olha, senhorita, sabe que estou quase desligando o telefone?
Pode desligar. A responsabilidade é sua.
Responsabilidade porque?”, falou irritado.
Porque minha vida está em suas mãos.
Ah é né?
Sério. Não estou brincando. O senhor não percebeu ainda? Que minha vida está em suas mãos?”


Trecho do conto x, de Whisner Fraga

“[...]ao ríspido guincho do fusca, que empregávamos para as aulas de volante, quando os trâmites da embreagem desafiavam a coordenação dos seus pés encolhidos nas havaianas, afif, quando um galho amputado se interpunha na promiscuidade entre o pneu e o asfalto e os pelos de duas meninas se ouriçavam com o zurro descautelado do ramo partido e estacionávamos para analisar aqueles seios ressabiados nos coldres do poliéster e da lycra, as convocávamos para um sorvete e também para um cinema, onde aproveitaríamos uma que outra cena umbrosa na insignificância da fita para atacar o crepe daquelas coxas juvenis e quem sabe conquistar a mercê de um beijo. entretanto, afif, o mocinho da película acalcava a inquietação do negrume de um quarto sem janelas ou lâmpadas ou mesmo lampiões ou velas e nesta hora eu interpelava a arrelia dos flashes na mansidão da tela, os olhos escapando da agilidade da palma, que investigava a angustiante morfologia do joelho, daquele pontifício joelho representando a aflitiva transição para o âmbito das responsabilidades. contudo, afif, a ansiedade bordejava pelos subterrâneos da garganta, preparando o sobressalto de um grito e a glutinosa serenidade de um toque a ponderar os estratagemas do zíper de minha bermuda, era a sua audácia, garota, rompendo os entraves até ao termo do que julgava sua obrigação, quando você recolheu o fantoche da glande embrulhado com a casca daquela novidade ondulante e eu já comprovava a vantagem dos filmes em preto e branco para o encobrimento de peripécias. a rebeldia tentacular bamboleando a carenagem do sexo até à catastrófica descarga escalando as suas mãos, menina, e você a emborcar os dedos na língua, extirpando as evidências daquele incidente, para em seguida me oferecer o lenço, para depois hastear a saia e afastar com o desatino do polegar as rendas da lingerie e com o indicador encorajar uma morosa confidência com o prazer.”

Whisner Fraga é professor, engenheiro e escritor. Autor dos livros Coreografia de danadosA cidade devolvidaAs espirais de outubroAbismo poenteO livro da carne e Sol entre noites. Site: www.whisnerfraga.com.br.



Autor de 'Queda da Própria Altura' (Confraria do Vento), finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e 'Cavala' (Record), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura - Categoria Contos. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais.


   Estudos sobre o livro Tarde da noite, de Luiz Vilela,  estão disponíveis em Rauer (2006), Rauer e Kelcilene (2010), e Rauer e Waleska (2013); contos do livro já foram adaptados para o teatro, para a tevê ("Tarde da noite”, Globo) e para o cinema (“Françoise”). 

Há também, no conto, os temas da incomunicabilidade e da solidão, temas que foram estudados em outras narrativas de Vilela, como na tese de Wania Majadas, nas dissertações de Ronaldo Franjotti e de Lucas Gonçalves, em TCC's e em artigos, conforme se pode verificar nos itens listados na aba Fortuna Crítica do Blog. 

Abaixo, reprodução do trecho do conto citado por Whisner tal como consta na 3ª edição, de 1983, da Editora Ática:

       "Olha, senhorita, sabe que eu estou quase desligando o telefone?"
       "Pode desligar. A responsabilidade é sua."
       "Responsabilidade por quê?", falou irritado. 
       "Porque minha vida está em suas mãos."
       "Ah, é, né?"
       "Sério. Não estou brincando. O senhor não percebeu isso ainda? Que                   minha vida está em suas mãos?"

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